Raquel Camargo
Atualidades úteis e fúteis
Atualidades úteis e fúteis
A morte de celebridades mundiais sempre chocam de forma mais avassaladora e muda radicalmente as pautas dos veículos de comunicação, tornando o fato triste manchete unânime. Assim sempre foi e sempre será.
No dia 8 de dezembro de 1980, ao voltar para seu apartamento em Nova Iorque, John Lennon foi abordado por um rapaz que queria um autógrafo e, pelo suposto fã, foi assassinado com um tiro. A polícia chegou ao local minutos depois e levou o corpo do ex-Beatle para um hospital.
O cantor, que tinha 40 anos, que marcou a história da música morreu após perder cerca de 80% de seu sangue. Em seguida, a notícia da morte de Lennon correu o mundo e moveu uma multidão em frente ao Dakota (edifício onde morava o artista), com velas e com a voz embalada por músicas de John e dos Beatles.

Na primeira manhã sem o músico, rádios de todo o mundo dedicavam suas programações exclusivamente à Lennon. A rádio Exitos, da Cidade do México, sugeriu que todos que quisessem homenagear o cantor apagassem as luzes de suas casas às 22 horas, e asim aconteceu. No alto do Hotel México foi possível observar toda a região ficando mais escura. O falecimento do astro da música desencadeou inúmeros protestos e formas de expressão relacionados à sentimentos pregados pelo próprio, como a liberdade e a paz.
Noticiada na noite da quinta-feira 25 de junho de 2009, a morte de Michael Jackson provocou no mundo um impacto semelhante a da perda de John Lennon.
Assim como o ex-Beatle, Jackson também foi responsável por um dos grandes marcos da evolução da música. Já em tempos de internet relativamente popular, os reflexos e reações da sociedade ao saber do falecimento do astro pop trouxeram novas experiências e observações.
“A internet transformou-se numa expansão do espaço “offline” e questões concernentes à vida e morte materiais, migraram para dentro do mundo online em busca de resignificações e com usuários buscando expressar um sentimento de luto, em sistemas que não significam a morte “. (Aguilera e Silvestre.
Antes mesmo da morte de Jackson ter sido oficialmente confirmada, no microblog Twitter o assunto já era o mais comentado, deixando nos Trending Topics (que mostra os assuntos mais discutidos pelos usuários) siglas como “MJ”, “Rip MJ” e afins. Veja gráficos (via Hashtags.org).


Após o TMZ se destacar perante todos os outros veículos do mundo, ao divulgar em primeira mão a morte de Michael, inúmeros serviços online ficaram indisponíveis ou enfrentaram problemas provocados pelo excesso de acessos.
Durante alguns instantes da noite do dia 25 de junho o maior buscador do mundo, o Google, ficou incapacitado de responder aos pedidos de busca pelo nome de Michael Jackson.

O Twitter também sentiu o peso da morte do cantor. O sistema teve dificuldades em ficar no ar devido a avalanche de acessos e visitas, tendo registrado nos primeiros minutos após a confirmação da morte cerca de 100 mil posts por hora. “Vimos a quantidade de ‘tweets’ por segundo dobrar assim que a história veio à tona. Esta notícia, sobre a morte de um ícone global como Jackson, foi o maior aumento no número de ‘tweets’ que registramos desde a eleição presidencial dos Estados Unidos”, declarou co-fundador do Twitter Biz Stone, segundo o jornal Los Angeles Times. Ilustração abaixo divulgada no site da revista Época.
Já na Wikipedia, usuários relataram que tiveram dificuldades ao acessar o verbete do nome do artista. De acordo com números do site WikiRank, que contabiliza acessos de verbetes da versão americana da enciclopédia, o nome do cantor teve alta de 31,9% só neste domingo (28 de junho).

O Last.Fm divulgou gráficos que mostram a demanda por canções de Jackson desde o anúncio de sua morte. Obtidos no seguinte ao ocorrido, até o momento quase 55 mil músicas do artista haviam sido executadas em uma hora. Abaixo também está a comparação de MJ com hits de Prince e do Jackson 5, que mal se destacam. Clique nas imagens para aumentar.
O YouTube, que preparou um canal especial do Michael Jackson, teve videoclipes de músicas como Thriller, You are not alone e They don’t care about us reproduzidos até cinco milhões de vezes. O site “Viral Video Chart”, que reúne os vídeos de mais sucesso dos últimos dias no mundo só conta com produções que têm alguma relação com o artista. Na lista dos maiores virais do momento, as 11 primeiras posições são dominadas de Michael, que em seguida é interrompida por um vídeo sobre Iphone, mas em seguida volta a ter Jackson novamente.

O Google Insights for Search nos mostra os Top Searches feitos relacionados ao cantor. Se consideradas as buscas feitas por todo o mundo, o termo “michael jackson dead” tem sido o mais buscado. Se segmentarmos a pesquisa apenas com as buscas vindas do Brasil, o resultado é “morte michael jackson” e “michael jackson fotos”.

Por fim, o Google Trends, que mostra a evolução de pesquisas por termos específicos também comprova o fenômeno provocado pela morte de Jackson. Abaixo o gráfico de buscas pelo nome do artista nos últimos trinta dias, por usuários de todo o mundo.

Através de canais online também foram organizados diversos flashmobs pelo mundo. Na estação de trem de Liverpool Street, por exemplo, fãs do cantor foram às ruas para cantar e dançar. Cerca de mil pessoas participaram da manifestação.
A morte de Michael Jackson, sem dúvidas, provou mais uma vez o poder da internet. A mídia tradicional, desta vez, ficou refém de sites que noticiavam o assunto (O TMZ tem “furado” todo o mundo ao informar detalhes sobre o ocorrido), e o comportamento das pessoas também motivou todo o fenômeno, mostrando o poder de pulverização de notícias (através de seus blogs e perfis em demais redes sociais) e as formas de expressão de luto através das ferramentas online. Portanto, isso pode ser interpretado como um natural processo social da sociedade onde cada indivíduo se apropria das novas tecnologias para trabalhar os fatos que interferem seu cotidiano.
“Com relação aos aspectos culturais, Oliveira (2001) destaca que, desde o século XIX, o sujeito tem gradativamente se tornado passivo e alienado diante da situação da morte, ao contrário do que acontecia na Idade Média, quando tal situação era utilizada para festas e comércio, misturando a vida e a morte. Domingos e Maluf (2003) acreditam que, mesmo que a morte seja algo certo, ela é um dos maiores temores do homem ocidental. Dessa forma, Ariès (1977) sugere que o ato de abreviar ou encurtar os sentimentos decorrentes da perda é algo que a sociedade ocidental herdou do século XIX. Há uma tendência cada vez maior de negar a morte e de torná-la menos ritualizada. O mesmo autor defende que, em uma sociedade moderna regida pelo individualismo, a morte não é mais consolável pela idéia de continuação da comunidade como um todo, adquirindo o sentido trágico do fim solitário de uma existência, tornando-se muito mais difícil de ser enfrentada e encarada.” (Scarparo, Soares, Jung e Peruzzo, 2007).
Na Idade Média era algo frequente a manifestação clara de sentimentos provenientes de uma morte, e por um longo tempo, a morte “a morte foi acompanhada por sentimento de familiaridade, resignação passiva e esperança mística” (KOVÁCS, Maria Júlia, Morte e Desenvolvimento Humano, São Paulo, Casa do Psicólogo, 2008.). Do século XX adiante, a morte foi tomada por uma interpretação que envolvia fracasso, dor e fraqueza ( ARIÈS, 1977) dando espaço assim ao aparecimento do luto.
Na internet encontramos a liberdade de expressão com facilidade, portanto ações que poderiam ser inibidas fora do ciberespaço têm mais possibilidade acontecer, uma vez que a manifestação de sentimentos fique mais “fáceis” de serem feitas, através de publicações de fotos em blogs, fotologs, atualização de perfis em redes sociais e demais tipos de ações online. Por fim, a morte de Michael Jackson é um grande case, um importante exemplo de como a morte de uma celebridade mundial reflete na sociedade nos dias atuais.
Referências
ARIÉS, P. História da Morte no Ocidente. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
DOMINGOS, B.; MALUF, M. R. Experiências de perda e de luto em escolares de 13 a 18 anos. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, v. 16, n. 3, 577-589, 2003.
KOVÁCS, M. J. Morte e desenvolvimento humano. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1992.
OLIVEIRA, T. M. O Psicanalista diante da Morte. São Paulo: Mackenzie, 2001.
SILVESTRE, José Carlos, AGUILERA, Villaonga Nuricel. Morte e Luto no CIberespaço.
PERUZZO, Alice Schwanke, JUNG, Bruna Maria Gil, SOARES, Tárcio et al. A expressão e a elaboração do luto por adolescentes e adultos jovens através da internet. Estud. pesqui. psicol. [online]. dez. 2007, vol.7, no.3 [citado 28 Junho 2009], ISSN 1808-4281
28/06/2009 - 22:05
Impressionante a qualidade da analise emcima do assunto, parabenz quequelz ;]
29/06/2009 - 10:30
Essa frase diz tudo, A morte de Michael Jackson, sem dúvidas, provou mais uma vez o poder da internet.
@leandrodavi
29/06/2009 - 10:55
Esta aí um caminho para outros astros decadentes voltarem ao topo: o céu. Quem disse que morrer não faz bem? Funerais que dariam mais ibope que ao vivo:
Pelé
Xuxa
Silvio Santos
Cyndi Lauper
Galvão Bueno
O último foi só pra ver morto mesmo.
30/06/2009 - 17:54
Respondendo, Hotel Tofu e mais uma moçada no dia 4, debaixo do viaduto Sta. Tereza, meio dia. Chega cedo pq eles serão os primeiros.
Cordialmente, e belo texto
Baxista
03/07/2009 - 00:44
Olá,
Melhor texto que já li em seu blog até hoje.
Sugiro deixar mais claro termos como “re-significação”.
Além disso, a palavra “assim” está apenas com um “s”.
Parabéns pela analise.
10/07/2009 - 07:20
Caramba, que post rico….
23/03/2010 - 22:57
Parabéns pelo post.
Extremamente bem escrito e fundamentado!
23/03/2010 - 23:29
Olá Anonimo 2,
muito obrigada!
Abraços
Raquel