Demorei, mas enfim, vou comentar o assunto.

A Folha de São Paulo e o Globo criou recentemente regras direcionadas aos jornalistas com orientações sobre utilização de blogs, Twitter e redes sociais.

Com manual já normatizado (e polemizado), a Folha coloca cercas nas possibilidades de usos dos jornalistas da instituição. A priori, a norma do maior jornal impresso do Brasil dita que os jornalistas/autores não devem assumir posição relacionada À partidos, candidatos ou campanhas, e proíbe “furos” através de meios de publicação particulares.

De fato, isso não é injusto. Afinal, quando trabalha na apuração de um fato que será transmitido ao grande público por meio de um grande veículo não é ético o profissional tomar partido antes e adiantar a notícia de forma não oficial. Se seu produto final é conteúdo jornalístico e de entretenimento, talvez divulgar o que seria inédito seja uma forma de concorrência.

A íntegra do comunicado interno da folha, de acordo com o blog Toledol, a editora-executiva Eleonora de Lucena frisa:

“Os profissionais que mantêm blogs ou são participantes de redes sociais e/ou do Twitter devem lembrar que:

a) representam a Folha nessas plataformas, portanto devem sempre seguir os princípios do projeto editorial, evitando assumir campanhas e posicionamentos partidários;

b) não devem colocar na rede os conteúdos de colunas e reportagens exclusivas. Esses são reservados apenas para os leitores da Folha e assinantes do UOL. Eventualmente blogs podem fazer rápida menção para texto publicado no jornal, com remissão para a versão eletrônica da Folha.”

Apesar de defender inicialmente, considero, num todo que a empresa em questão não trabalha com um pensar de “colaboração”, de “transmissão”. Creio que um meio termo deveria ser buscado antes da decisão.

Além disso, é fundamental pensar no grande suporte que o Twitter dá quando o assunto são “furos jornalísticos”. Segurar uma informação que poderia ser divulgada no Twitter por causa de burocracias e processos que só permitem que a mesma seja publicada tempo depois (quando talvez o fato já esteja frio), é um pensamento infeliz.

Em algumas palestras que já dei sobre Twitter, citei o exemplo vivido em 2008. Quando a cidade de São Paulo sofreu um terremoto, o Twitter já anunciava o fato mais de vinte minutos antes que a própria Folha de S. Paulo. Observem a data e horário de publicação de cada uma das imagens.

Enquanto a publicação se mantinha no silêncio por motivos de apuração, já era possível recolher diversos depoimentos sobre o fato através do microblog. Isso é algo que exige uma reflexão…

Não estou dizendo que o Twitter vai substituir as publicações tradicionais, nada disso. Mas acho que um pode, de fato, complementar o outro. Se o Twitter é tão instantâneo, façamos dele uma ferramenta para facilitar a velocidade de propagação das informações. E as páginas formatadas do site oficial do jornal continuarão com o seu papel, trazendo a notícia completa, bem apurada e com detalhes. Acho que o leitor só teria a ganhar!

A moda pega!

Antes mesmo de tomarmos ar ao saber da decisão da Folha, lá veio a Globo entrando no ritmo e restringindo o uso de redes sociais pelos contratados. É, Blog, Facebook, Twitter, Orkut, MySpace e tudo mais está vedado.

PROIBIDOS: “a divulgação ou comentários sobre temas direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas a Globo; ao mercado de mídia ou qualquer outra informação e conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Globo”. É isso que diz o blog de Lauro Jardim.

Agora, se o artista da Globo quiser usar alguma rede social ou publicar um blog, precisará pedir autorização ao veículo.

A justificativa da Globo é a tentativa de proteger seus “conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores”. Pois isso, para mim, tem cheiro de censura, apesar de ter também uma lógica embutida.

A começar, o fato de trechos dos comunicados internos vazarem já é algo a se pensar (em ambos os casos), afinal, não adianta restringir nada, pois quando a coisa tem que que degringolar na internet, vai acontecer.

Essa decisão (que para mim é) radical, para mim é reflexo do uso experimental de redes sociais por celebridades, fato curioso que gerou um artigo interessante feito pelo Alex Primo.

Para falarmos de exemplos acontecidos aqui no Brasil, lembro-me de cara do Bruno Gagliasso que há alguns dias divulgou no Twitter uma foto que, praticamente, denunciava o final da novela Caminho das Índias. Uma imagem de dois bonequinhos de decoração de noivos foi publicada no microblog, indicando que haveria casório no fim da trama e virou notícia.

O ator que é fã assumido do Twitter já se manifestou sobre as normas da Globo, deixando clara sua insatisfação. “AMO O QUE FAÇO: ARTE!!!SOU CONTRA QUALQUER TIPO DE CENSURA.”, publicou ele pelo seu perfil.

“A independência da imprensa especializada em celebridades também é posta sob suspeita. Turner (2004) aponta que é possível observar um certo alinhamento entre as notícias publicadas pelos tablóides e os interesses da indústria de entretenimento.”, escreveu Primo no artigo citado acima.

Isso é verdade, verdade clara. Basta dar uma olhadinha no Google. Enquanto esse tipo de pensamento for adotado, a tal crise dos veículos tradicionais somente será agravada e a bola de neve das censuras veladas somente irá aumentar.

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